Passar para o conteúdo principal
Main Content
MovSaúde Editorial • 21 Apr 2026

Ana Paula Vieira: “Quando pensava em cancro, nunca pensava no colorretal”

Ana Paula Vieira, 57 anos Ana Paula Vieira, 57 anos

Tinha 55 anos quando recebeu o diagnóstico de cancro colorretal. Aos 57, Ana Paula Vieira, antiga professora de história, partilha com a MovSaúde o seu testemunho sobre os primeiros sinais da doença, o impacto do diagnóstico na sua vida e a importância de falar abertamente sobre um cancro que continua envolto em silêncio e desconhecimento.

Que idade tinha quando foi diagnosticada?

Fui diagnosticada aos 55 anos, na sequência de uma colonoscopia solicitada pelo meu médico de família. Atendendo à minha idade e ao facto de nunca ter realizado este exame, aconselhou-me a fazê-lo. 

Quais foram os primeiros sinais ou sintomas? 

Hoje, olhando em retrospetiva, percebo que já tinha alguns sintomas que não valorizei na altura: evacuava com maior frequência, as fezes tornaram-se mais finas e tinha alguma distensão abdominal. 

O que a fez decidir procurar aconselhamento médico? Se pudesse voltar atrás, teria procurado ajuda médica mais cedo? 

Não faço esse exercício do “se pudesse voltar atrás”. O passado já foi, não o posso alterar  e não teço recriminações. Sempre fui saudável e tinha um estilo de vida que, na minha perspetiva, não se enquadrava neste tipo de patologia. Além disso, não existiam casos de cancro colorretal na minha família.

O que posso hoje afirmar é o seguinte: ninguém está à espera de receber um diagnóstico de carcinoma do reto. Somos surpreendidos. Quando pensamos em cancro, este não está no topo da lista. Mas é preferível submetermo-nos ao “desconforto” de um exame do que enfrentar tratamentos brutais, viver na incerteza e lidar com as sequelas decorrentes dos tratamentos.

Houve algum sintoma que desvalorizou no início e que hoje não ignoraria?

A alteração do formato das fezes.

Que sinais acha importante que as pessoas conheçam melhor?

Alterações nos hábitos intestinais, como diarreia ou obstipação, defecar mais ou menos vezes do que o habitual, alterações nas características das fezes (mais “finas”, mais duras ou mais moles), desconforto ou dor abdominal persistente, fadiga, perda de peso inexplicável e sangue nas fezes. 

Como descreve o momento em que recebeu o diagnóstico?

Foi um momento de forte atordoamento. Como referi, este não era um tipo de cancro que julgasse um dia poder vir a ter. Quando pensava em cancro, pensava no da mama ou da pele. O cancro colorretal era, para mim, algo bastante desconhecido, a informação que tinha sobre ele era bastante vaga. 

Sente que a sua vida mudou muito desde o diagnóstico? De que forma?

A vida muda e nós mudamos com ela. A jornada oncológica é pessoal, única e intransmissível. A forma como a percorremos depende das nossas características e história pessoais, das nossas convicções, do momento de vida em que acontece, do apoio familiar e do círculo de amizades.

O tratamento é duro e os efeitos também. No caso do reto, a cirurgia de ressecção deixa sempre sequelas. A síndrome de ressecção anterior do reto é uma realidade pouco falada. Sempre muito relativizada. Viver com uma ileostomia ou colostomia também tem os seus desafios. 

O autocuidado durante e após os tratamentos é fundamental. O cuidado com a nutrição, a suplementação em caso de carências, a prática de atividade física regular, a regulação do sono, a regulação do stress, a manutenção das relações sociais, o envolvimento em atividades que nos estimulem cognitiva e emocionalmente, e o cuidado com a própria identidade, ou seja, proteger a nossa imunidade, permitir que o nosso corpo recupere e regenere. 

Ter cancro não é vergonha nem é culpa nossa. Temos o dever e o direito à qualidade de vida. E conseguimos, mas tal exige disciplina, consistência e confiança no processo de adoção de um estilo de vida saudável. O estilo de vida saudável é tão válido para a pessoa sem cancro como para a pessoa diagnosticada com cancro.

Se pudesse dar um conselho a uma pessoa que acabou de receber um diagnóstico, qual seria?

É-me difícil dar qualquer tipo de conselho. Talvez dissesse: confie nos profissionais de saúde, mesmo quando isso nem sempre é fácil, e faça o melhor possível naquilo que depende de si. Não se recrimine nem se questione. Confie na capacidade do seu organismo se regenerar.Não tenha medo de mostrar a sua fragilidade. E nesta doença existem apenas diagnósticos, ninguém pode fazer prognósticos.

O que gostaria de ter sabido antes do diagnóstico?

Tudo aquilo que hoje sei sobre a doença e que então desconhecia.

Considera que o cancro colorretal é ainda um tabu? 

Sim. É um cancro pouco falado. Existe algum pudor em falar sobre ele, pois envolve uma zona do corpo com um impacto em todos os aspetos da nossa vida. É o excretor de fezes, a moral social não gosta dessas palavras: fezes, esfíncter, flatulência, diarreia, obstipação, ânus, cólon, reto… Não têm “glamour”!

Precisamos de falar mais sobre isto, naturalizar e deixarmo-nos de falsos puritanismos. 

Gostaria de deixar uma mensagem a alguém que está a ler este testemunho?

A qualquer momento, o cancro pode atravessar-se no nosso percurso, é simplesmente a vida a acontecer. Ninguém espera ou escolhe. Acontece. Uma maior literacia sobre o cancro, a adesão aos rastreios existentes, consultar o médico de família perante sinais ou sintomas persistentes. Fazer de conta de que não é nada não resulta, ou melhor, pode resultar num diagnóstico tardio. Empatia com quem tem esta patologia. Nada de palavras fugazes, sujeitas a repetições, omissões e lugares comuns. Apoio é presença, não palavras vãs. Em vez de um “vai correr tudo bem”, antes um “estou aqui”. O percurso é longo, é para maratonistas.